quinta-feira, 29 de maio de 2014

Texto escrito em 2000: Análise crítica das posições da Consulta Popular



O PT nunca foi uma unanimidade na esquerda brasileira. Na época da sua fundação, organizações como o PCdoB, o PCB e o MR-8 o acusaram de divisionista, valhacouto de revisionistas e agente da social-democracia.
Mesmo no interior do Partido, vários grupos consideravam que o PT era apenas uma legenda, uma frente, um expediente a partir do qual se podia alcançar as massas. Para a revolução, contudo, seria necessário construir um partido revolucionário, coisa que o PT não seria.
Essas críticas não impediram que o PT se transformasse, ao longo de duas décadas, no maior partido da esquerda brasileira. Maior do ponto de vista eleitoral, mas também e principalmente no que diz respeito à militância: é petista a maioria dos dirigentes da CUT, da Central de Movimentos Populares, do Movimento Sem-Terra, dos integrantes das pastorais sociais da igreja católica, bem como grande parte da juventude politicamente ativa.
Pelo menos desde 1990, contudo, o crescimento do Partido vem sendo acompanhado de problemas que repõem a questão: o PT é um partido socialista ou social-democrata? Um partido revolucionário ou reformista? Um partido à serviço das lutas sociais ou de carreiras eleitorais?
Desta ou de outras maneiras, milhares de petistas se questionam sobre o que está acontecendo com seu partido. Alguns abandonam a militância, outros se acomodam, outros buscam alternativas. Para um grande número de militantes, esta alternativa estaria no Movimento Sem-Terra e, mais recentemente, na Consulta Popular; para um número menos expressivo, estaria no PSTU ou, para ser mais preciso, na construção de uma organização que integrasse a esquerda petista, o PSTU e a militância da "esquerda social" que gravita ao redor do MST.
Em qualquer caso, a esquerda brasileira vive uma situação semelhante a enfrentada nos anos sessenta: um forte questionamento ao partido hegemônico (na época, o PCB, hoje o PT) e o surgimento de alternativas reais ou imaginárias.
A maioria destas alternativas não conseguiu implantar-se na classe trabalhadora, que continuou sob a influência do comunismo oficial e do PTB. Só o Partido dos Trabalhadores, vinte anos depois do início da crise do PC, conseguiu raízes sólidas entre os assalariados, pequenos proprietários rurais e setores médios.
Existem várias causas que explicam o fracasso das dezenas de organizações que tentaram suplantar o PC: a repressão militar, a luta armada, a opção pelo campo como cenário estratégico, o surgimento de uma nova classe trabalhadora, etc.
O mais curioso, entretanto, é que a maioria daquelas organizações rompeu com a linha pacifista do PC, mas não rompeu com a concepção estratégica que norteava aquela organização. Algo semelhante está ocorrendo hoje: várias tendências que integram a chamada esquerda petista e parte dos companheiros que animam a Consulta Popular são partidários de uma linha programática muito semelhante a da maioria moderada do PT. Semelhanças que afetam, ainda que mais na forma que no conteúdo, inclusive a elaboração teórica do PSTU, especialmente no que diz respeito a idéia de que vivemos um processo de "recolonização".
Estas semelhanças ficam dissimuladas pelas divergências táticas (Fora FHC?) e por algumas opções estratégicas (ruptura? papel da luta de massas e da disputa institucional?). Mas elas existem, como se pode perceber por exemplo com a leitura do livro A opção brasileira; ou numa resenha sistemática dos documentos das organizações citadas, que cada vez mais vertebram sua elaboração estratégica ao redor da "questão nacional", da "luta pela soberania e desenvolvimento econômico".
Longe de nós minimizar a importância da "questão nacional" nos dias que correm. Qualquer debate, raso ou profundo, sobre os problemas programáticos e estratégicos da revolução socialista no Brasil deve levar em conta a chamada questão nacional.
Ocorre que a crise teórica e prática vivida pelo PT e pelo conjunto dos movimentos sociais e da esquerda brasileira não será superada se substituirmos a luta pelo socialismo, pela defesa da "Nação Brasileira". Aliás, basta ler os documentos, ouvir os discursos e atentar para os movimentos da ala moderada do PT, para perceber que eles já aderiram, de mala e cuia, à um nacionalismo moderado.
Ocorre que um dos efeitos da globalização foi o fortalecimento do nacionalismo. O paradoxo é apenas aparente. A contradição que dominou o mundo, entre o fim da Segunda Guerra Mundial e o desmanche da União Soviética, foi aquela existente entre capitalismo e socialismo. Todas as demais contradições remetiam àquela, inclusive a contradição entre imperialismo e libertação nacional, entre democracia e ditadura, entre desenvolvimento e subdesenvolvimento. É por isto, aliás, que a luta contra o imperialismo, contra as ditaduras e contra o subdesenvolvimento era considerada por muitos como parte da “conspiração comunista”.
Na década de 80, os capitalistas venceram a batalha contra o campo socialista e agora estão atacando as conquistas democráticas, econômicas e sociais em todo o mundo. A contradição dominante no mundo, hoje, não é mais entre capitalismo e socialismo, mas sim inter-capitalista. Mais precisamente, a contradição entre as grandes nações capitalistas; e entre as grandes nações e as nações da periferia capitalista.
Um dos efeitos desta nova situação é o ressurgimento do nacionalismo, em suas mais variadas facetas. O nacionalismo de grande potência, típico dos Estados Unidos, que se considera o povo eleito para dominar o mundo. O nacionalismo xenófobo, do trabalhador e do pequeno empresário que estão sendo esmagados pelos capitalistas, mas descarregam sua raiva contra o imigrante. O nacionalismo das potências regionais. E o nacionalismo dos povos oprimidos.
Diante da nova situação, os socialistas de todas as matizes foram levados a reformular suas estratégias e programas. A maioria deslizou para a direita. Os social-democratas abandonaram o Estado de bem-estar social e passaram a administrar o neoliberalismo. Grande parte dos partidos comunistas e das guerrilhas, em particular latino-americanas, fez o mesmo percurso. A maioria abandonou a luta pelo socialismo, se limitando a lutar contra o neoliberalismo e por um capitalismo “menos cruel”, a ser obtido através de disputas eleitorais.
Acontece que a experiência do século XX demonstra que só teremos sucesso na luta pela soberania nacional, pelo desenvolvimento econômico, pelo bem-estar social e pela democracia, se tivermos sucesso na luta pelo socialismo.
O Estado de bem-estar social europeu é uma conseqüência direta e indireta da “ameaça comunista”. Sem o apoio político, econômico e militar do campo socialista, a luta pela libertação nacional teria tido menos êxito do que teve. Os experimentos “desenvolvimentistas” em vários países foram tolerados ou até incentivados pelos Estados Unidos, como uma forma de conter a revolução no terceiro mundo. Nosso desafio, portanto, está em incorporar a questão nacional, as reivindicações democráticas e pelo desenvolvimento econômico, no corpo de uma estratégia socialista. Mas para conseguir isso, nosso ponto de partida não deve ser a questão nacional, mas sim a “questão socialista”.
Aqui reside nossa principal divergência com as posições que nos parecem hegemônicas na Consulta Popular, tal como expressas no livro A opção brasileira: em nossa opinião, ali se faz uma abordagem nacionalista da questão nacional.
Já na “apresentação”, o livro diz sintetizar idéias que “vêm sendo formuladas nos últimos anos por um conjunto de pessoas, que têm em comum a confiança no povo brasileiro e a certeza de que pode construir um destino melhor para o país”. Logo depois, fala-se que “nos últimos anos, foram profundamente alterados os termos que organizam o debate político e cultural no Brasil. Generalizou-se a idéia de que não há mais a possibilidade de um desenvolvimento em bases nacionais”. Ou seja: o ponto de partida da Opção é o Brasil, “a viabilidade do Brasil”.
Por enquanto, vale registrar que a mesma inversão é feita por Marco Aurélio Garcia, coordenador-geral do II Congresso do PT, para quem o “socialismo petista” devia ser um subitem do grande eixo de discussão sobre um projeto nacional de desenvolvimento alternativo para o Brasil.
A Opção não indica que a crise do socialismo é uma das principais causas e conseqüências da alteração nos “termos que organizam o debate” no Brasil. A dificuldade que a esquerda brasileira passou a ter, nos anos 90, para enfrentar o debate político e cultural, advém principalmente da perda do referencial programático, ideológico, teórico do socialismo.
O debate existente no Brasil, dos anos 30 aos anos 80, foi entre diferentes projetos nacionais. A esquerda participou deste debate tendo como referência estratégica a luta pelo socialismo. As insuficiências da esquerda neste debate tinham relação direta com a concepção etapista do Partido Comunista, segundo a qual antes do socialismo deveríamos lutar pela “libertação nacional”, luta em que teríamos como aliada a burguesia “nacional”.
A medida em que a referência socialista perdeu força, a capacidade da esquerda intervir no debate “nacional” também se enfraqueceu. Isto quer dizer que, para recuperar força plena no debate “nacional”, a esquerda brasileira tem que simultaneamente reconstruir sua referência estratégica socialista.
Alguém pode dizer que esta crítica é um exagero. Afinal, a Opção afirma uma clara disposição de “pensar o impensável”, de “explicitar bases conceituais”, apresentar “fundamentos”, “um sistema de idéias”, “algumas coisas que ultimamente se tornaram impensáveis, na medida que rompem com as bases da organização socioeconômica atual do Brasil e reatualizam a idéia de um futuro socialista”. No final do livro, pode-se ler que, “se nos perguntarem se o projeto que esboçamos é de natureza socialista, responderemos que sim. O socialismo burocrático morreu. Mas não a idéia de que a solidariedade pode ser o princípio organizador da vida em comum”.
Além disso que citamos, a questão do socialismo merece uma citação no início do livro, outra no final, uma referência de rodapé à China, um breve comentário sobre o colapso do sistema soviético e uma afirmação mais substancial na página 172: “Parte da economia deve ser socializada — sob a forma de propriedade estatal ou pública não estatal — e parte deve manter-se sob controle privado, de modo que a sociedade combine dois grandes mecanismos de alocação de recursos. O setor privado não monopolista será incrementado, via multiplicação de pequenas e médias propriedades e empresas (...) Todo esforço será feito para criar uma base empresarial nacional ampla, descentralizada e disseminada.”
Estas breves referências mostram, por si, como é contraditória a relação da Opção brasileira (e da Consulta Popular) com o socialismo. Para começo de conversa, o princípio organizador da vida em comum no socialismo é a igualdade, não a solidariedade (expressão de forte trânsito na militância católica). E qual socialismo queremos “reatualizar”, se renunciamos explicitamente a um projeto internacional?
O objetivo final dos socialistas é a constituição de uma sociedade sem exploração nem opressão em escala mundial. Noutras palavras, trata-se de construir uma sociedade sem classes, sem Estado... e sem nações. É claro que este é o objetivo final, não o início da caminhada. No início do processo, os trabalhadores lutam contra sua própria burguesia e buscam tomar o poder de Estado “nacional”. A maior parte da luta anticapitalista é travada a partir das fronteiras nacionais. Mas travar a luta “a partir das fronteiras nacionais” e “a partir de uma perspectiva nacionalista” são duas coisas diferentes.
Quando a social-democracia alemã votou a favor dos créditos de guerra e apoiou seu governo na I Guerra Mundial, atuou a partir de uma perspectiva nacionalista. Quando os bolcheviques assumiram a postura “derrotista”, enfrentando não apenas o czarismo mas também os sentimentos patrióticos da maioria do povo russo, o fizeram a partir de uma perspectiva internacionalista. Quando os bolcheviques decidiram tomar o poder em outubro de 1917, pesou muito sua visão internacionalista, de que a revolução russa seria o ponto de partida da revolução socialista européia. Quando a União Soviética participou das negociações de Yalta, Teerã e Potsdam, pesou mais a visão nacionalista do PC Soviético.
Poderíamos prosseguir com os exemplos, mas é evidente que existe uma contradição potencial entre os interesses “nacionais” e “internacionais” da classe trabalhadora.
A Opção não faz esta distinção e, pior ainda, renuncia assumida e conscientemente a ter um “projeto”, uma perspectiva estratégica internacional. Segundo o livro, é “no espaço nacional que se podem definir metas claras, utilizar elementos de planejamento para alcançá-las e tratar seriamente a questão social; nele podem operar instituições democráticas abrangentes, aptas a formar uma vontade coletiva, forte o bastante para contrariar a marcha da insensatez. Nem o espaço local nem o global permitem que isso se dê. O primeiro é pequeno demais, fragmentado demais, e vive imerso no tempo curto de demandas imediatas sempre renovadas. O segundo é grande demais, complexo demais, pontuado pelo tempo longo das transformações muito lentas; como não tem instâncias que expressem a cidadania, reduz todas as relações humanas a relações de mercado. Embora sejam legítimas, as visões local e global, se predominarem, condenam a ação política a diferentes formas de impotência. Faltam, às duas, instituições decisivas.”
Não deixa de ser curioso encontrar quem diga, num século marcado por enormes e rápidas transformações de escopo internacional, que o espaço global é pontuado pelo “tempo longo” das transformações “muito lentas”. Mas sigamos adiante:
“É, antes de tudo, no âmbito da nação — pelo menos, de algumas nações — que as comunidades humanas atuais encontram a possibilidade de fazer história, ou seja, de viver em um tempo orientado, operando em um espaço suficientemente amplo para ensejar transformações profundas, e suficientemente manejável para torná-las viáveis. É nesse âmbito que nosso povo pode viver de acordo com suas tradições, suas regras e seus objetivos, fazendo aflorar suas potencialidades, que devem somar-se ao patrimônio geral da humanidade. É compartilhando essa identidade que pessoas distantes e desconhecidas, espalhadas por um vasto território, podem sentir-se solidárias umas com as outras e responsáveis por um destino comum, condição para que a barbárie não prospere”.
            A Opção considera que as visões “local” e “global” condenam a ação política à impotência, não percebendo que, no mundo atual, as vezes o “nacional” equivale ao “local”.
O internacionalismo sem base nacional é impotente (basta ver o que ocorreu com o trotskismo, com raríssimas exceções). Mas o nacionalismo sem projeto internacional também pode ser impotente, isto quando ele não se torna perigoso, como já vimos em algumas revoluções socialistas que sofreram desvios chauvinistas e tentaram impor ao movimento socialista o seu interesse particular, como sendo o interesse geral da classe trabalhadora do mundo.
Mas será possível construir um projeto e uma ação internacionais? A resposta começa a aparecer quando colocamos de ponta-cabeça o raciocínio exposto na Opção brasileira:
Se o “espaço nacional” é uma construção social e, “como toda idéia simultaneamente real e imaginária, a nação precisa ser permanentemente reinterpretada e recriada”, o que impede que construamos socialmente um “espaço internacional”?
Não é preciso “inventar” uma sociedade internacional. Essa sociedade existe, e não se manifesta apenas nas guerras e crises econômicas. Ela é um dos produtos da expansão capitalista dos séculos XIX e XX. É a base real que devemos tomar como ponto de apoio para um projeto internacional.
Se só “algumas nações” podem “fazer história”, então existiriam outras nações que não podem fazer história, são inviáveis.... O que os socialistas brasileiros têm a oferecer a estes países? Nada? Ou devemos oferecer um projeto internacional? Ou será que, no final do século XX, nosso “projeto” será mais tímido do que o de Bolívar? Por que aceitar como eterna a “inexistência de instâncias que expressem a cidadania, em escala internacional”? Por que achar que a ação internacional é impotente? Foram impotentes as “marchas contra a Europa do capital”?? São impotentes os encontros intercontinentais pela humanidade e contra o neoliberalismo??? É impotente a Via Campesina?? Foram impotentes as campanhas internacionais pela redução da jornada de trabalho? Por quais motivos é só no âmbito da nação, “que pessoas distantes e desconhecidas, espalhadas por um vasto território, podem sentir-se solidárias umas com as outras e responsáveis por um destino comum, condição para que a barbárie não prospere”? Por quais motivos estas palavras e estes objetivos não podem realizar-se em âmbito mundial?
Em defesa da Opção, vale dizer que nos tempos atuais até mesmo os trotskistas estão sofrendo uma forte influência nacionalista. O PSTU adotou a tese da "recolonização". Um dos principais dirigentes de O Trabalho (Daniel Gluckstein) sintetiza a fase atual da luta de classes como de "destruição das forças produtivas e cuja forma concentrada é a desagregação das nações”. Para Glukstein, "não há qualquer assimilação entre defesa da Nação, da soberania nacional, e o nacionalismo".
            Acontece que a história do movimento socialista no século XX está cheia de exemplos em que a defesa da soberania nacional transformou-se em nacionalismo. O problema está em que, partindo de uma mesma e justa afirmação — “o combate pela emancipação da classe operária não pode desenvolver-se no quadro de uma nação submetida” — pode-se concluir duas coisas diferentes: a de que primeiro luta-se pela emancipação nacional, para depois se lutar pela emancipação social; ou a de que se faz as duas coisas juntas.
É exatamente na primeira alternativa que reside o maior risco da “luta pela soberania nacional” transformar-se em “nacionalismo”.
            O ideário explicitado por A opção brasileira não constitui uma alternativa ao ideário nacional-desenvolvimentista, hegemônico no PT e na esquerda brasileira. Constitui uma tentativa, e nesse sentido merece todos os elogios. Mas uma tentativa que recauchuta conceitos que já eram equívocos nos anos 50 e 60. Revelando que algumas tentativas de superar o PT padecem do mesmo problema das organizações que buscavam superar o velho PC: capazes de uma profunda crítica tática e sobre as formas de luta e acúmulo de forças, não conseguiram superar os marcos teóricos da alternativa democrática e nacional.
Nossa crítica às posições nacionalistas presentes na Opção brasileira, feita ao longo dos últimos anos e acompanhada da crítica de outros companheiros, certamente influenciou segmentos da Consulta Popular a rever suas posições, a realçar o caráter socialista de seu programa ou a minimizar aspectos inaceitáveis, como a expectativa no apoio das Forças Armadas a um projeto popular.
Saudamos este progresso, embora ainda não tenhamos visto em nenhum lugar uma autocrítica formal e explícita das posições presentes na Opção; ao mesmo tempo em que vemos um reforço de aspectos verde-amarelos na "mística" tradicional das atividades da Consulta.
            Mas nossa crítica à Consulta Popular não se resume a questão programática. Ela se estende, também, a dois temas sobre os quais, até onde sabemos, não existe nenhum documento oficial da Consulta: as questões estratégicas e partidárias.
            Evidentemente, a Consulta Popular pode argumentar que não lhe cabe --uma vez que não se pretende um partido, nem se pretende concorrente ou alternativa ao PT-- elaborar sobre ambos os temas. Mas embora respeitemos a opinião que os companheiros têm sobre si mesmos, consideramos que a atividade prática que a Consulta desenvolve é de natureza para-partidária.
Ou seja: quando se reúnem militantes (não massa, mas militantes), para discutir um programa (não uma pauta de reivindicações, mas um programa), para formar quadros em torno de temas histórico-estratégicos e para discutir organizadamente ações comuns, é evidente que estamos diante de uma organização para-partidária, mesmo que não se assuma como tal.
            Um movimento social pode ter algumas destas características e continuar sendo um movimento social. É o caso do MST, que tem na luta pela reforma agrária e por outra política agrícola o "lastro" que mantém seu caráter de massa e de movimento social.
            Um grupo de movimentos sociais pode se articular para desenvolver ações comuns. É o caso da Central de Movimentos Populares, do Fórum Nacional de Lutas etc. Mas são articulações entre movimentos, não articulação de militantes.
            A Consulta Popular não é um movimento social, tampouco uma articulação de movimentos sociais. Trata-se de uma articulação de militantes, reunindo petistas e não-petistas. Mas não se considera, nem se pretende, nem se apresenta como um partido. Naturalmente, as pessoas e as organizações não são apenas o que pensam que são.
            Consideramos que a contradição entre o que a Consulta é, e o que ela pensa ser, é produto, por um lado, da incompetência do PT, em particular da esquerda petista, que não ofereceu espaços orgânicos para a militância cotidiana. O que leva muitos militantes do PT a buscar espaços coletivos que organizem sua militância cotidiana. Nesse sentido, nossa crítica à Consulta é antes de mais nada uma autocrítica.
Mas consideramos, também, que a indefinição sobre o caráter da Consulta serve, ao menos para parte dos seus impulsionadores, como biombo para esquivar-se de travar de maneira clara o debate acerca da questão partidária. Debate que implica em responder ao seguinte: o PT é o partido estratégico dos que lutam pelo socialismo no Brasil (ou, pelo menos, um dos partidos estratégicos), ou "adaptou-se ao regime", como gostam de dizer os dirigentes do PSTU?
            Afirmar que "o PT por hora segue sendo um instrumento necessário para chegar ao socialismo", fazer um balanço profundamente negativo do II Congresso do PT e não definir "qual a relação que devemos ter com o PT" significa, em linguagem popular, que não se deve acender vela boa para defunto ruim.
            Em nossa opinião, esta atitude expectante frente ao PT constitui uma política irresponsável. Cada militante que se descomprometeu com as assembléias que elegeram delegados ao II Congresso, por achar que o Partido não vale o esforço, que o importa é "a luta", é indiretamente responsável pela derrota do Fora FHC.
É preciso interromper a complacência com este tipo de atitude irresponsável, esquerdista, que considera "internismo e burocracia" a luta pelos rumos do PT. Comportamento que, de uma maneira geral, só faz sentido para aqueles que desconhecem a importância de um partido, que consideram que todo partido é burocrático por definição, que acham que a "ação" é tudo e o Partido, nada.
A idéia segundo a qual "o movimento é tudo, o partido é nada" --faz o jogo de setores da direita petista, que preferem que a esquerda constitua um novo partido.
Evidentemente, nossa crítica não se estende a todos os militantes da Consulta Popular. Mas é preciso fazê-la, com absoluta clareza, para que venha a luz a posição de segmentos expressivos e talvez hegemônicos da Consulta.
A Opção brasileira tem ares de programa, mas silencia acerca da estratégia e do partido. Um programa sem estratégia e sem partido é algo em si inquietante. A luta política, os movimentos táticos e estratégicos, a análise de conjuntura, não são diretamente dedutíveis das "grandes tendências" do processo histórico. Muito menos quando se desconhece a estrutura de classes da sociedade brasileira, reduzindo-a a apenas dois blocos: a "elite" e o "povo".
Visão simplista que certamente tem dificuldades em entender como o atual presidente da UDR pode criticar FHC por "entregar o país aos norte-americanos"; por que os grandes banqueiros brasileiros combatem a internacionalização do sistema financeiro nacional; por que a Ambev se apresenta como "multinacional verde-e-amarela" etc.
            As resoluções da Articulação de Esquerda desenvolvem nosso ponto de vista sobre as questões estratégicas e partidárias. Aqui gostariamos de destacar apenas duas questões fundamentais: o comportamento dos trabalhadores assalariados e o papel fundamental da chamada luta institucional no atual período histórico.
O peso do PT na sociedade brasileira, assim como seus problemas, estão intimamente vinculados a estas duas variáveis. Foram os assalariados, especialmente os operários, que hegemonizaram o processo de criação do Partido; e foi o impacto do neoliberalismo sobre esta classe que abriu passo à direitização partidária.
A relativa moderação dos assalariados, ao longo dos anos 90, moderação levada ao paroxismo pela maioria da direção da CUT, fez ressurgirem as teorias que prognosticam o papel "ontologicamente reformista da classe operária" e clamam por "outra classe" para vanguardear a luta pelo socialismo. Para Jacob Gorender, seriam os intelectuais. Para setores da Igreja Católica, mas também para Cristovam Buarque, os "excluídos". Para James Petras, o "novo campesinato" e assim por diante.
Em nossa opinião, entretanto, não haverá revolução socialista no Brasil, se não colocarmos em movimento a maior parte dos trabalhadores, que são assalariados e urbanos. E que, na sua maioria, estão empregados, na produção.
Os métodos políticos e organizativos necessários para mobilizar estes setores não são idênticos aos utilizados na luta do campo.
O descenso da mobilização dos trabalhadores assalariados urbanos, nos anos 90, teve como contraponto um lento mas persistente progresso eleitoral das esquerdas. Este fato constitui um bálsamo para a direita petista, e um anátema para a ultra-esquerda. Para nós, tem um duplo sentido: por um lado, a transformação do PT numa força institucional constituiu um obstáculo à ofensiva neoliberal; por outro lado, aprisionou nosso o partido, e grande parte da esquerda, no "beco eleitoral".
Não se sai deste beco negando a luta institucional, nem tampouco, como é óbvio, adaptando-se. Mas sim levando-a a suas últimas consequências.
A solução para os dois problemas --a passividade do mais importante setor da classe trabalhadora e a hegemonia do eleitoralismo na ação do partido mais importante da esquerda-- exige respostas mais complexas do que a mera "mobilização". Como se viu na greve dos professores do Rio Grande do Sul, existem contradições entre os lutadores do povo, que só podem ser equacionadas no terreno da ação político-partidária. E como se vê nas últimas semanas, um crescimento da mobilização popular não cria, num passe de mágica, as condições necessárias para a troca da via institucional pela via insurrecional.
Em qualquer dos casos, a questão fundamental que precisa ser respondida é se a existência do PT, e a existência de um PT com uma forte esquerda no seu interior, é um obstáculo ou uma alavanca para a solução daqueles dois problemas estratégicos, bem como para os problemas táticos cotidianos da luta de classes no Brasil.
Esta questão, como é óbvia, não pode ser respondida senão na prática. E é na prática que os ataques de ultra-esquerda ao PT são total inconseqüência, uma vez que ajudam, pela omissão, a que prevaleça no Partido a posição moderada.

Este texto, apresentado por Valter Pomar (SP) na III Conferência Nacional da AE, foi remetido para debate interno no conjunto da AE, pela Conferência.




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